sábado, 12 de novembro de 2011

Candide ou l'Optimisme

....Mas confesso que, quando lanço os olhos sobre este globo, ou antes, sobre este glóbulo, creio que Deus o abandonou ao poder de qualquer ente malfazejo; exceptuo sempre o Eldorado. Ainda não vi cidade que  não desejasse a ruína da  cidade vizinha, nem família que não quisesse exterminar qualquer outra família. Por toda a parte os fracos execram os poderosos perante os quais se arrastam, e os poderosos tratam os fracos como rebanhos de que vendem a lã e a carne. Um milhão de assassinos arregimentados, correndo a Europa de ponta a ponta, exerce o assassínio e a pilhagem disciplinadamente para ganhar o seu pão, porque não há profissão mais honesta; e nas cidades que aparentemente vivem em paz, nas cidades onde as artes florescem, os homens consomem-se com mais invejas, cuidados e inquietações, do que uma fortaleza sitiada sofre de tais flagelos. Os desgostos secretos são ainda mais cruéis do que as misérias públicas. Numa palavra, vi tais coisas e sofri tais desgraças que sou maniqueu.

Cândido, de Voltaire pseudónimo de François Marie Arouet (1694-1798)
Publicado pela primeira vez em 1759

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