No íntimo da sua alma, contudo, esperava um acontecimento. Como os marinheiros aflitos, percorria com os olhos desesperados a solidão da sua vida, procurando ao longe alguma vela branca nas brumas do horizonte. Não sabia ela qual seria esse acaso, o vento que lho traria para perto, nem para que praia se sentiria levada, se seria chalupa ou navio de três pontes, carregado de angustias ou cheio de felicidades até às escotilhas.
Mas todas as manhãs, ao acordar, esperava que viesse naquele dia e escutava todos os ruídos, levantava-se em sobressalto, surpreendia-se que não tivesse vindo; depois, quando o Sol se punha cada vez mais triste, desejava estar já no dia seguinte.
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(...) A tal ponto que quando se foi embora, Emma fechou a porta com um sentimento de alívio que a surpreendeu a ela própria. Aliás ela já não escondia o seu desprezo por tudo e por todos;(....)
Seria que aquela miséria duraria para sempre? Não haveria maneira de lhe fugir?
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Tudo lhe era insuportável, incluindo a sua própria pessoa. Desejaria poder, escapando-se como um pássaro, ir rejuvenescer em qualquer lado, bem longe dali, nos espaços imaculados.
Madame Bovary, Gustave Flaubert